Sobre Minha Leitura de “Ngugunhana”, autorado por Ungulani Ba Ka Khosa. (Book Review)
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O livro Gungunhana foi
sugestão alheia. Em Setembro de 2024 – pois, teve de entrar na fila (e saltou
alguns lugares 🥲) – me recomendou uma antiga estudante.. Sugestão que
se mostrou 'degno d'attenzione' (como diriam os mediterrâneos da esquerda),
lugar oposto aonde foi exilado o Rei de Gaza. Rei de Gaza que se descreve sua
ascensão ao trono neste livro. Uma ascensão um tanto quanto amoral --
implementou na prática a Realpolitik, mandando matar um dos
irmãos que poderia, eventualmente, sublinhe-se eventualmente, contestar
seu trono.
Se escreve no livro
sobre o pensamento e/ou fala de Ngugunhana, que mudou de nome,
enquanto ascendia ao trono: "Os homens que não me conhecem,
conhecer-me-ão. Não vou partilhar o poder. Ele pertence-me desde que nasci do
ventre de Lozio, minha mãe, a mulher preferida de Muzila. E serei temido por
todos, porque não me chamarei Mudungazi, mas Ngugunhana, tal como essas
profundas furnas onde lançamos os condenados à morte! O medo e o terror ao meu
império correrão séculos e séculos e ouvir-se-ão em terras por vocês nunca
sonhadas!
E porque o rei manda,
não faz, entre vai e vem, indica-se
Ualalapi para executar o irmão de Ngugunhana, Mafemane. Nesse processo, uma
conversa entre Ualalapi e respectiva esposa faz interesse, pois percebe-se a
fábrica de consentimento em Ualalapi – não precisamos todos anestesiar nossa
consciência para fazer aquilo que coloca duvidas ao espirito? anyway:
"– Sangue, Ualalapi,
sangue! Vivemos do sangue destes inocentes.
– Porquê, Ualalapi?...
– É necessário, mulher.
Nós somos um povo eleito pelos espíritos para espalhar a ordem por estas
terras. E é por isso que caminhamos de vitória em vitória. E antes que o verde
floresça é necessário que o sangue regue a terra. E neste momento não te deves
preocupar com nada, pois estamos em tempo de paz e luto. (...)” e vendo a
preocupação da sua companheira de leito, Ualalapi lha acalma:
– Não te preocupes. Eu
só morrerei em combate como meu pai que com quatro lanças enterradas no peito
teve a coragem única de arremessar a lança que hoje utilizo no peito de um
tsonga a uns dez metros de distância. Só morrerei em combate, mulher. É o meu
destino, é o destino de todos os grandes guerreiros nguni.” Ao que riposta sua
esposa:
“– Não te enganes,
Ualalapi. Muitos foram os guerreiros que morreram de forma estúpida e sem
estarem em combate. (...) Também se morre fora de combate. E eu tenho medo,
Ualalapi."
E sobre a morte de Mafemane, dois momentos demonstram sua serenidade:
1. "–
Esperava-os -- disse Mafemane, aproximando-se de Manhune. -- Sei que Muzila
morreu. Sei também que o meu irmão foi escolhido como sucessor, apesar de eu se
filho primeiro da inkosikazi de Muzila, Fussi. O trono pertence a Mudungazi.
Sei também que vieste com ordens para me matar. Estou preparado para morrer.
Mas peço-vos que me deixeis despedir das minhas mulheres e dos meus filhos.
Vinde ao cair do dia."
2. "–
Pensei que não viessem -- disse Mafemane, percorrendo-os com o olhar, um olhar
penetrante, incisivo. -- Não era necessário tanta gente, bastavam dois. Mas
estou pronto. Podeis matar-me. Sei que não podereis entrar na vossa aldeia sem
meu corpo. Conheço Mudungazi de criança. E conheço essa crapulosa mulher que
tem por nome Damboia. Não vos quero roubar tempo, andasteis muito. Podeis
matar-me."
Acto contínuo no
reinado de Ngugunhana, um evento indelével, porque deixou marcas físicas no
rei, marca a vida deste. Uma de suas esposas acusa um súbito, de nome Mputa, de
lha ter faltado respeito e influencia o rei para que tome medidas exemplares,
como que para evitar precedentes. Mputa é morto, mesmo sendo inocente – como
terei percebido da leitura, embora não eseja claro a inocência dele. É difícil
afirmar a inocência de um homem, sobretudo em sociedade de corrupção e
arbitrariedade. E é morto, Mptura, aos olhos da multidão e sobretudo em olhar
inocente mas raivoso da filha, criança de 13 anos. Raiva que lhe faz
aproximar-se sozinha ao rei (dos maus claculos em face da pressa da vingança,
não?), que vê sua libido elevar-se em presença de 'mulher' desprotegida, pouco
tocada, com o corpo ainda livre de marcas alheias. O rei vai para cima dela,
que pretendia o matar, mas não conseguindo apenas cortou pouco à Ngugunhana:
"E poucos foram os que souberam que Ngugunhana tinha uma marca indelével
na coxa direita do seu corpo."
E como termina Ngugunhana? 13/03/1896 desembarca em Lisboa. 23/12/1906
morre em Angra.
Em Ngugunhana também é
possível ter um 'grasp' (na língua e
sotaque daqueles que queriam o território hoje conhecido como Moçambique) da condição do homem negro em terras hoje libertas de Moçambique. Veja-se a ordem, numa
das incursões coloniais ao interior de Gaza: "– Queimem a povoação --
sentenciou o coronel e esperou o cavalo em direção ao outeiro mais
próximo."
Ainda, a ignorância dos
outros, vientes: "Já vi um preto a ser esfaqueado. Em vez de sangue saía
água, capitão."(...) "Mas o moço tirou curso de artes e ofícios. Nada
vale um curso desses nas mãos de um preto."
Nas cidades, os negros
eram "Proibidos de andar pelos passeios reservados aos brancos, os pretos
iam evitando os poucos carros que transitavam pela avenida (...)" Era comum
assistir-se, em pleno dia, a pretos lagatões a serem seviciados por senhoras
brancas de baixa estatura física, e a outros a serem pontapeados, por tudo e por
nada, nas obras de construção civil, por capatazes visivelmente etilizados ou
transtornados pelo sufocante calor dos trópicos."
(...) Aliás, uma
surpresa daquele tempo, por parte de uma das esposas de Ngugunhana que esteve
exilada e eveio encontrar mudanças sócio-políticas, de volta à terra pode fazer
semelhança com eventual surpresa dos leitores de Ngugunhana de hoje, 2026, se
não tiverem conhecido o “tempo colonial” antes da revolta heroica de
moçambicanos, do rovuma ao maputo, que em dez anos extinguiram o regime
fascista do território dos Ngunis, Nyanjas, Macondes, Tsongas, Jauas, Macuas,
Nadus, Senas, Nhungues, Chuabos, Naharas, Muanis, Changanas, entre outros deste
mosaico maravilhoso que se vislumbra à costa do extenso indico. Pequena
digressão terminada, voltemos à surpresa:
“Pagam aos brancos? --
perguntou ingenuamente, Namatuco.
– Eles é que mandam,
agora.
– Gaza morreu?... E
Chaimite? -- insistiu Namatuco.
– Há um grande chefe
branco vivendo e mandando em Gaza. Mandlakazi já não é nosso. Chaimite tem um
régulo que presta contas aos Portugueses. Todos os nossos chefes de terras são
nomeados pelos portugueses.
– O que é isto então? –
perguntou Phatina, visivelmente perturbada.
– É Moçambique.
– Porquê?
– Não sei,
Phatina."
Ainda sobre a condição
do Homem negro de Moçambique, eis um relato interessante, em relação aos nomes.
Nomes que fazem identidade.
"– Na minha
caderneta de indígena registaram o nome de Manuel Antunes Sigmundo Simango.
– Porquê?
– O patrão assim quis.
Chama-se Antônio Antunes. (...) Diz que não podemos ter nomes de pretos.(....)
– Se Muzumussi
estivesse viva, cuspiria de raiva -- imiscui-se Phatina – Ela negou-se sempre a
aceitar o que os padres quiseram impor. Queriam que Ngugunhana tivesse uma só
esposa. Ela disse: 'Ou todas ou nenhuma.'(...)
– Mas há ngunis que já
comem peixe -- adiantou Namatuco, com um sorriso trocista.
– Os brancos deixam-te
andar pelas ruas deles?
– Tenho caderneta. (..)
“Permitia-se, com o
cartão de indígena, levantar produtos a crédito na loja dos Narotam, baneanes
com cantinas espalhadas nos subúrbios da Malanga, Mafalala, e Munhuana.” Esclarece
o autor, durante a obra.
Sobre as mulheres do rei, é
interessante notar a recepção que terão depois do exílio. O mau olhar e más
falas como a seguinte: "Um rei transporta a dignidade, e quem a não
transporta cai por terra. Ser rei é ter a moral por cima. Falaste homem, e isso
estende-se à família. Estas pretas não podem ter sido mulheres de um rei, assim
desleixadas, com trouxas e sacos sem valia! E descalças! E com filhos de outros
leitos! São indignas de serem mulheres de um rei.
Há aqui, no livro, um proto-marandzismo talvez: "Tu
compreendes, Oxaca, eu sou ronga, como peixe, gosto de vida boa, sou jovem,
como tu, tenho vinte e dois anos e vida por gastar, e sei que este homem me
fará feliz (...)".
Sobre algumas outras: "Fussi
apaixonou-se pela vida noturna. (...) Phatina não alterou a sua personalidade,
mantendo-se fria a qualquer investida masculina, apesar dos respeitáveis
atributos físicos: (...) Namatuco era a ponte para os espíritos Nguni. (...)
manteve-se fiel a aparência, alimentando o milenar adágio de sempre parecer
honesta; (...) Malhalha preferia ensinar ao filho o forro e a língua portuguesa
e, segundo esse ideário, registou-o trocando o apelido de Samakuva por Gomes.
Tudo, segundo ele, para não prejudicar o filho na ascensão social."
Sobre os curandeiros, se lê: “A captura e adestramento de raios só a poucos, mas muito
poucos ulóis era concedida, muitos ficavam pelo caminho, incapazes de
domesticarem os mortíferos raios. Aos de bons espíritos, os tinyanga, era-lhes
facilitada a aprendizagem, (...)"
Uma nota conclusiva: a escrita do Autor, o Ungulani. Maravilhosamente
enigmática, nalgumas vezes, com um laconismo próprio que atira atenção. Veja-se
neste excerto:
"A noite passou. A
manhã nasceu. As mulheres foram à água. Os guerreiros foram à caça de
gafanhotos. Ngugunhana dormia. Acordaram-no. 'Teu filho morreu', disseram.
'Quem?', perguntou. 'Manua.' 'Enterrem-no', respondeu e dormiu. A manhã
cresceu. Os gafanhotos desapareceram. As nuvens fugiram do céu. O império
gemia.… … …
… … …
Uma maravilha de livro!
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