Fundamentalismo: A Prisão dos Actores Internacionais Modernos, desde EUA, Israel e Irão até Al-Qaeda, Boko Haram e o Movimento de Libertação do Senhor.
As relações internacionais de hoje são fruto dos Acordos de Vestefália. Entretanto não se pode resumir a evolução histórica dos Estados a um evento histórico de 1648, data de assinatura dos Acordos de Vestefália. Porém, no estudo da interação entre Estados Modernos, os Acordos de Vestefália que colocaram fim a guerras religiosas na Europa – guerra dos 80 anos (1568-1648) e guerra dos 30 anos (1618-1648) – entre protestantes e católicos, grosso modo, surgem como um divisor de águas[1]. Esses acordos marcam o inicio das relações internacionais modernas. Assim, com o fim das guerras retro mencionadas, os signatários desses vários acordos concordam em não basear, doravante, suas relações na ideia de nação, mas sim, na razão de Estado.
Surge então com Vestefália
o Estado moderno. É também com Vestefália que se estabelecem três princípios
que vão guiar as acções dos Estados na interação entre eles. Falamos do
princípio de (i) liberdade de culto
(Estados multiculturais e multirreligiosos); princípio do (ii) reconhecimento (de outros reinos pelo
sacro-império romano germânico – por conseguinte, não ingerência nos assuntos
internos de outros Estados); e princípio do (iii) novo ordenamento jurídico europeu (baseado no Estado-nação). Esses
princípios por serem aplicados até hoje mantém a pertinência de Vestefália, de
tal forma que nos referimos ao Estado moderno como Estado Westfaliano. Contudo,
percebe-se que alguns desses princípios enfrentam desafios, como o princípio da
liberdade de culto – Estados multiculturais.
Vale lembrar uma
diferença do antes e depois quanto a Vestefália. Antes de Vestefália, o Estado
baseava-se em aspectos nacionais como religião, semelhança étnica, mesmos
hábitos e costumes; enquanto que depois de Vestefália, esses aspectos perdem
gradualmente importância, sendo substituídos por aspectos seculares e laicos.
Os preceitos da paz de Ausburgo (1555), um acordo precedente a paz de
Vestefália, conferiam aos príncipes o direito de implantar suas religiões em
seus reinos, o que mudou com Vestefália, pois se estabeleceu a liberdade de
culto dentro dos Estados. Por isso fala-se que antes de Vestefália dominava a
ideia de nação-Estado e depois de Vestefália domina a ideia de Estado-nação.
Actualmente, porém,
parece que o princípio de liberdade de culto está em xeque. Isso ocorre em
diferentes partes do mundo. Tanto em Estados ocidentais, assim como orientais,
nota-se o fortalecimento do fundamentalismo. E o fundamentalismo dentro dos
Estados é por vezes alavancado por grupos relativamente poderosos e de alcance
internacional. Portanto, actores Estatais assim como não estatais[2]
têm tido comportamentos fundamentalistas.
Por exemplo, os
Estados africanos são, muitos deles, produtos do colonialismo. Isso é, a
maioria dos Estados africanos foram colonizados pelas potências coloniais como
França, Reino Unido, Portugal, Espanha, Alemanha, Bélgica e Itália, de forma
permanente ou intermitente. Esse legado histórico torna os Estados africanos
naquilo que se convencionou chamar de “Estados Pós-Coloniais”. São Estados
Pós-Coloniais porquanto surgem do colonialismo, foram colônias.
Ora, tendo sido colônias,
esses Estados procuram consolidar-se como entidades organizadas ao estilo
ocidental, ao estilo westfaliano. Teoricamente, se define Estado como uma
unidade politicamente organizada, num território específico, composto por uma população
também específica. E em Teoria de Relações Internacionais, acrescenta-se o
reconhecimento internacional – o Estado deve ser reconhecido por outros Estados
e Organizações Internacionais relevantes, como Organização das Nações Unidas
(ONU), por exemplo.
Entretanto, movimentos
tidos como fundamentalistas condicionam a solidificação de muitos Estados,
sobretudo no continente africano. No caso africano, do fundamentalismo, muitos
movimentos tornam-se radicais e daí terroristas. Mas, globalmente, são os próprios
Estados que agem em função de considerações fundamentalistas.
Este texto insere-se
nessa busca de enquadramento do conceito “fundamentalismo”, de forma teórica
para a realidade prática internacional, estatal e não estatal. Certamente, um
estudo mais aprofundado ofereceria mais elementos de compreensão dessa preocupação,
contudo, aqui se faz uma abordagem inicial, talvez superficial, para começar o
debate na relação desses termos com a realidade. Dada a limitação diversa deste
estudo, toma-se apenas alguns exemplos representativos para compreender como o
fundamentalismo se enquadra na realidade internacional. Assim, casos como dos
EUA, Israel, Irão, Índia, Al-Qaeda, Boko Haram, Movimento de Libertação do Senhor,
demonstram como o fundamentalismo se enquadra na realidade internacional.
Note-se a existência do fundamentalismo nos actores estatais assim como não
estatais.[3]
1.Fundamentalismo
Fundamentalismo é um
conceito ligado à movimentos religiosos e como tal consiste em olhar para a
realidade material com base nos textos percebidos como sagrados. Assim, os
fundamentalistas, de qualquer religião que sejam, procuram sustentar a
actividade diária com base na interpretação que fazem dos textos religiosos,
tal como exposto abaixo:
fundamentalism, type of conservative religious movement characterized by
the advocacy of strict conformity to sacred texts. Once used exclusively to
refer to American Protestants who insisted on the inerrancy of the Bible, the
term fundamentalism was applied more broadly beginning in the late 20th century
to a wide variety of religious movements. Indeed, in the broad sense of the
term, many of the major religions of the world may be said to have
fundamentalist movements.
Isso é, historicamente
o fundamentalismo insere-se no contexto da evolução do Estado americano, por
meio de congregações protestantes que se opunham, e ainda se opõem, a
determinadas normas seculares. Por necessidade lógica, o fim último das
correntes fundamentalistas é a implantação de um Estado teocrático.
Actualmente, o termo fundamentalismo é igualmente associado à alguns grupos malfeitores que usam a religião islâmica para cometer actos criminosos enquadrados como terroristas. Muitos dos integrantes desses grupos reivindicam-se de interpretações descontextualizadas do Alcorão para sustentar acções terroristas. Esses grupos são considerados, a bem ou a mal, defensores do fundamentalismo islâmico. Ao fundamentalismo correlaciona-se o conceito de Radicalismo, tal como se vai expor adiante. Por ora, importa distinguir como o fundamentalismo se enquadra em actores estatais e não estatais.
2. Casos de Estudo de Actores Estatais:
Estados Unidos da América, Israel e Irão
Actores estatais são
Estados, países, e são os principais actores das relações internacionais –
aqueles que mais influenciam o curso da interação no mundo, no Sistema
Internacional. Por isso, importa inicialmente ver como Estados lidam com o
fundamentalismo.
2.1. Fundamentalismo Cristão nos Estados
Unidos da América
Nos Estados Unidos, os
movimentos fundamentalistas existem com relativa força desde o inicio do século
XX. E embora o surgimento dos EUA nos remeta a criação de um bastião de
liberdade, incluindo especificamente liberdade religiosa – como a colônia que
se liberou da coroa britânica e do poder tradicional da igreja – a evolução do
mesmo esteve associada à movimentos fundamentalistas. Aliás, o termo fundamentalismo
foi cunhado nos anos 1920 nos EUA
Nos EUA, os
fundamentalistas opunham-se ao estudo da teoria da evolução e ao consumo de
bebidas inebriantes, por exemplo. Durante os primeiros anos, e até a década 70,
os fundamentalistas afastavam-se da vida politica. Porém surgiram dois
principais grupos de fundamentalistas nos EUA: milenaristas e pós-milenaristas.
Os primeiros não consideravam necessário envolverem-se na política por ser um
mundo predominantemente corrupto. Os segundos mantinham a convicção de
envolverem-se na politica para acelerar a vinda de Jesus Cristo. Este último
grupo tem ganho predominância na Administração do Presidente Donald Trump.
Assim, nos EUA o
ojectivo dos fundamentalistas é de transformar o Estado numa teocracia Crista
(Ibid). Esse objetivo pode ser visto actualmente na aproximação existente entre
o Presidente Donald Trump e grupos fundamentalistas de congregações religiosas,
sobretudo do espectro conservador e de direita na política norte-americana.
Portanto, nota-se que a liderança americana está parcial ou totalmente sob influência
de grupos fundamentalistas cristãos, sobretudo evangélicos
Imagem 1: Presidente Donald Trump Recebendo
Bênçãos de Pastores Cristãos

Fonte: Christian News
Na imagem acima se vê
o Presidente norte-americano acompanhado de Pastores Cristãos que lhe oferecem
oração para que tenha sucesso na sua atividade Politica. Claro, em defesa do
líder norte-americano pode-se considerar que Presidentes de vários países
interagem com diferentes congregações religiosas; contudo, neste exemplo
destaca-se que a Política Oficial do Estado, sobretudo no domínio externo é
justificada por considerações bíblicas.[6]
Ademais, esses encontros têm sido relativamente frequentes, de tal forma que,
“as tropas americanas foram ditas que a guerra com o Irão é parte do plano
divino de Deus.
2.2. Fundamentalismo Judeu em Israel
No Estado de Israel,
dos poucos nação-Estado[7]
modernos, o fundamentalismo pode ser encontrado em grupos como os sionistas, e
os judeus ultra-ortodoxos askenzis e safaradinos. Todos esses grupos procuram
fazer uma interpretação escatológica da Torá e do Talmud aos eventos modernos.
Antes da criação do Estado de Israel, duas perspectivas divergiam: a (1) criação
do Estado de Israel apressaria a vinda do Messias, para salvar a humanidade e
(2) a criação do Estado de Israel seria percebida como desafio para Deus, que
olharia como interferência dos homens na busca pela vinda do messias.
Assim, a própria
criação do Estado de Israel é visto nos círculos religiosos como cumprimento da
profecia da figueira. Seguidamente, esses religiosos acreditam na necessidade
de (re)construção do terceiro templo no monte dos templos em Jerusalém como
outro acelerador para a volta de Jesus Cristo. Sucede que no local aonde se
deve construir o referido templo, existe actualmente a Mesquita Al-Aqsa – parte
do conflito entre Israel e Palestina, de forma especifica, mas Israel e os
Estados Árabes do Médio Oriente, de forma geral, e eventualmente entre Israel e
Estados de maioria muçulmana, advém dessa impossibilidade material: construir o
templo no local aonde existe a Mesquita Al-Aqsa.
Historicamente, após a
criação do Estado de Israel, os judeus religiosos participaram nalguns
governos. Judeus religiosos têm se oposto a devolução dos territórios
sucessivamente ocupados por Israel nas guerras israelo-árabes[8].
De forma resumida, muitos fundamentalistas judeus consideram necessário manter
o Estado de Israel e que por meio dele a escatologia do retorno do Messias vai
se efectivar.
Desse modo, Israel é
um Estado teocrático
Imagem 2: Benjamin Netanyhu seguindo ritual
religioso

Fonte: Christians United for Israel
Na foto acima o
Primeiro-Ministro de Israel aparece num ritual judeu no contexto da “Guerra dos
doze dias” de 2025, aonde Israel e EUA atacaram Irão.
Finalmente, entre EUA
e Israel, existe uma conexão teológica manifesta numa versão evangélica das
igrejas norte-americanas que pode ser qualificada como sionismo cristão. Essa
perspectiva pode ser evidenciada nos recentes comentários durante uma
entrevista[10] do
Embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, qual “afirmou que seria
“aceitável” se o Estado judeu assumisse o controle de uma vasta faixa do
Oriente Médio, incluindo territórios que, segundo interpretação bíblica
mencionada em entrevista, se estenderiam do Nilo ao Eufrates.”
2.3. Fundamentalismo Islâmico do Irão
Muitos estudiosos usam
o termo islamistas para referir-se aos fundamentalistas islâmicos, devido a
origem historicamente cristã do termo fundamentalismo
A revolução islâmica
de 1979 no Irão, representa um marco indelével na análise do fundamentalismo islâmico.
Da revolução surgiu a República Islâmica do Irão – um Estado baseado na “interpretação
iraniana” do Alcorão; por isso, um Estado teocrático. Aqui as aspas indicam que
a forma como os iranianos baseiam suas leis no Alcorão não representa todo o
mundo islâmico, como por exemplo, os sauditas, os indonésios, os turcos, ou os senegaleses.
Assim, o fundamentalismo islâmico inclui socialismo, conservadorismo e outros
movimentos seculares – não existe um único fundamentalismo islâmico.
Contudo, o fundamentalismo islâmico no Irão, não será uma rejeição completa do moderno, mas sim uma rejeição da dominação ocidental sobre sociedades islâmicas. E essa dominação está associada ao aspecto político e cultural, mais do que tecnológico e econômico. Portanto, o Irão se percebe como bastião e defensor legítimo dos interesses do islão no médio Oriente, contra a dominação e humilhação ocidental dos EUA e Israel – percebidos como o grande e pequeno satanás, respectivamente.
Imagem 3: Retrato dos Aiatolás

Fonte: BBC News Brasil
Na imagem acima, temos
no retrato dos dois Aiatolás, termo usado para designar líderes religiosos e
estatais no Irão. No Caso do Irão, o Estado teocrático apresenta-se de forma
clara porquanto a Constituição inspira-se em textos islâmicos.
2.4. Índia e Brasil, exemplos não
negligenciáveis
Na Índia, o Nacionalismo Hindu confunde-se
com o fundamentalismo
No caso do Brasil, o movimento dos partidos de
direita apoiadores do antigo Presidente Jair Bolsonaro pode ser percebido como
fundamentalista. Muitos dos apoiantes de Bolsonaro enquadravam-se em grupos
evangélicos das igrejas pentecostais que olhavam para o Presidente como
salvador do Brasil da condição de decadência moral e politica vigente. Durante
o seu mandato na Presidência do Brasil, por exemplo, Bolsonaro era tido como
“messias”, no vocabulário da direita politica brasileira, fortemente sustentada
por pastores evangélicos. Ainda, depois de sua derrota, muitos dos seus
apoiantes evangélicos referiam-se a sonhos proféticos para sustentar uma
eventual recusa de aceitar a derrota para o Presidente Lula da Silva.
No caso do Brasil, os acontecimentos
de 8 de Janeiro de 2022[12]
são um exemplo paradigmático sobre como a religião condiciona o funcionamento do
Estado Moderno. Antes de se avançar
especificamente sobre a influência dos líderes religiosos nos acontecimentos de
8 de janeiro, é importante trazer o significado de “líder religioso”. E Silva
(2020), nos expões dois significados relativamente interessantes. Um quanto a
prática e outro quanto ligação divina.
Por um lado a visão do
chamado do líder religioso para viver às custas de um pragmatismo de puro
ativismo religioso e múltiplas funções, que cresce a cada dia no viés da
teologia da prosperidade (síndrome do super-homem), reforçando assim um chamado
de pastoral de manutenção institucional. Por outro lado, é vivenciar a busca
constante por um chamado de serviço, diacônico e de cuidado de pessoas na
relação plena com o Numinoso (Sagrado), vivenciando o então Mysterium
Tremendum. Esta busca está acoplada à maneira como o líder religioso se percebe
e se vincula a uma rede de convivência, sustentabilidade e de comunicação entre
si. (Silva, 2020)
Destarte, é igualmente
importante notar que, os líderes religiosos, apenas têm importância porque tem
seguidores. No caso do Brasil, notemos que mais de 80% da população assume-se
como tendo fé ou acreditando em Deus (UOL Prime, 2022). Ora, essas pessoas que
tem fé em Deus muitas vezes estão inseridas em igrejas e/ou congregações que
têm líderes religiosos; e boa parte dessas congregações, que tem crescido
exponencialmente, são evangélicas. Tanto é que, segundo uma pesquisa da
DataFolha, de setembro de 2022 (UOL Prime, 2022), 56% dos brasileiros achavam
que politica e religião deveriam andar juntas.
O evento de 8 de
janeiro não é isolado do desenvolvimento da política brasileira nos últimos
anos. E os factores supramencionados são para relacionar com uma variável
constante durante os eventos anteriores e posteriores ao 8 de janeiro. Senão
vejamos, parte significativa da população evangélica brasileira percebeu
Bolsonaro como um resgatador da “decadência” do Brasil. E Bolsonaro olhou para
esse facto como uma oportunidade para cimentar sua base de apoio: religião,
família, conservadorismo moral.
De forma recente, depois
de eleito, o Presidente Jair Bolsonaro foi recebido na Igreja Assembleia de
Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro pelo Pastor Silas Malafaia;
seguidamente, Bolsonaro indicou André Mendonça, um evangélico, para o supremo
tribunal, o que o concedeu mais apoio no seio dos evangélicos, embora Bolsonaro
ser católico. Por seu turno, Valdirene Morreira considerava que, quanto a
necessidade de sair a rua e demonstrar indignação face aos resultados
eleitorais que consagraram Lula da Silva como presidente do Brasil, “nós
fazemos a nossa parte e Deus faz a Dele, e há tempo de paz e tempo de guerra”
(Fellet, 2023).
Outros pastores também
se posicionaram a favor de Bolsonaro nas eleições presidências de 2022, no
Brasil. São o caso de João Carlos Marques, da Igreja Batista em Células; a
pastora Ana Rita Reia Lima, da Comunidade Evangélica Fé, Vida e Graça, ambos da
Baia; ou ainda o pastor Claúdio Duarte, do Projecto Recomeçar, do Rio de
Janeiro (UOL Prime, 2022).
Boa parte desses
religiosos actua pelas redes socias mais do que pelas igrejas físicas.
Valdirene, por exemplo, chegou a ter 300.000 seguidores no YouTube. E a maioria
dos pastores que apoiavam o movimento que fez eclodir o 8 de janeiro falava em
revelações e profecias. Por exemplo, a pastora Valdirene Morreira falava de
visões sobre a necessidade de uma ação mais assertiva por parte dos apoiantes
de Bolsonaro (Fellet, 2023).
Outro pastor,
Reginaldo Rolin, do Cearà, falava de um sonho onde Jesus tomava todos os três
poderes no Brasil. Acrescentando que o exército tomaria o poder para proteger
Bolsonaro. Ainda, Marcelo de Carvalho, pastor da ciência da profecia, teria
informado que de acordo com uma visão que teve, a bandeira do Brasil não seria
mais verde e amarela, mas vermelha; para depois desmentir a autoria da
“profecia”. Ainda, o Pastor Sandro Rocha (no Twiter, X, conhecido como Maurício
Rocha) mencionou que Bolsonaro não abandonaria a presidência do Brasil, e que
Lula da Silva teria morrido e sido substituído por um sósia. Ainda falava de
uma visão que consistia na explosão do Supremo Tribunal Federal (STF), e
presença de um anjo que vai ocasionar jorramento de sangue no Congresso e uma
guerra no Brasil (Ibid).
Como podemos perceber,
todos esses comentários desses pastores podem ser relacionados com os factores
acima arrolados, na medida em que, esses comentários vão propulsar e instigar a
desobediência das decisões eleitorais. Porquanto, esses pastores gozam de uma
forte base de apoio, que os segue com pouca contestação.
2.4. Caso de Estudo de Actores Não Estatais:
Al-Qaeda, Boko Haram, e Movimento de Libertação do Senhor
Os actores não
estatais derivam dos Estados, são actores secundários ou derivados, e por vezes
condicionam o poder dos Estados. Muitos desses actores baseiam suas acções no
fundamentalismo. Na Índia, existe o fundamentalismo Sikh, que procura criar um
Estado na província Punjab, com base nos valores da cultura Sikh. Aliás, o caso
emblemático da oposição dos Sikhs ao Estado Indiano é o assassinato de Indira
Gandi, então Primeira-Ministra Indiana, em 1984, por dois dos seus
guarda-costas Sikhs.
Por seu turno, a
Al-Qaeda como grupo fundamentalista, faz uma leitura própria do Alcorão. Criada
como um movimento de luta contra a presença soviética no Afeganistão
(1979-1989) tornou-se numa força fundamentalista contra a dominação estrangeira
no Médio Oriente
Esses ataques são
percebidos entre seus apoiantes como luta legítima alicerçada no Alcorão. Tanto
é que os apoiantes e integrantes do Al-Qaeda apelidam sua luta de Jihad,
palavra árabe que significa luta, esforço, empenho, dedicação, etecetera.
Digressão necessária, essa luta é para agradar a Deus. Porém, a Jihad pode ser
divida em duas, pequena e grande, sendo a pequena referente ao confronto físico
(mais fácil) e a grande referente ao esforço interno de auto melhoria (mais
difícil).
Por sua vez, o grupo
Boko-Haram que actua na Nigéria, sustenta suas acções terroristas e criminosas
no Alcorão, tal como o grupo Al-Qaeda. O próprio nome “Boko Haram” pode
traduzir-se para “Educação Ocidental é Pecado”. As acções terroristas do Boko
Haram desafiam o Estado Nigeriano, na medida em que por vezes ocupam
territórios, sequestram população e condicionam a vida da população, com
objetivo de minar a legitimidade do Estado Nigeriano. Tal como o grupo
Al-Qaeda, seus integrantes reivindicam-se da Jihad nos ataques criminosos que
efectuam.
Finalmente, o
Movimento de Libertação do Senhor (MLS) como grupo fundamentalista, faz uma
leitura fundamentalista da Bíblia. O MLS é um grupo armado que levou a cabo
actos terroristas[13]
no Uganda com o objectivo de depor o Presidente Yoweri Museveni
3. Radicalismo, uma fase avançada do
fundamentalismo?
O Radicalismo é muitas
vezes usado de forma inadvertida com fundamentalismo, porém importa relembrar
sua definição. “Radicalismo é qualquer movimento que toma certos princípios em
sua raiz, em seu estrito espírito e essa posição, normalmente reativa, é uma
tentativa de se encontrar a pureza de algum discurso ideológico, suas raízes.”
Voltando ao conceito
de radicalismo, embora muitas vezes associado com extremismo, ambos têm
características próprias, porquanto enquanto o extremismo é muitas vezes
estático, no que concerne ao desenvolvimento da sociedade aonde se insere, o
radicalismo é dinâmico (Ibid). Ambos, não exigem, a priori, acção violenta como muito se pensa.
Assim, embora cada um
tenha suas peculiaridades, o fundamentalismo, radicalismo e extremismo são
conceitos que, instrumentalizados, levam para acção violenta. Note-se que em
todos os grupos fundamentalistas, dentro do aparato estatal ou fora dele, não
surgem imediatamente como violentos, mas as condições contextuais e existência
de agentes mobilizadores tornam-nos violentos. E esse processo de
instrumentalização é percebido como radicalização
E a radicalização é
que permite a acção prática dos fundamentalistas e extremistas. Para tal, Fair
(Ibid) tendo como referência a Análise Comportamental do Federal Bureau of Investigation (FBI), considera que três elementos
são determinantes no processo de radicalização: (i) procura por justiça, (ii) desejo
de notoriedade e reconhecimento, e (iii) vontade de resolver um problema pessoal
intolerável. Importa olhar então para as fases de radicalização, que embora
elas se concentram no terrorismo, servem para compreender acções
fundamentalistas, porquanto muitos grupos fundamentalistas desembocam em grupos
terroristas[14].
Gráfico 1: Ciclo de Radicalização

Fonte: Adaptado pelo Autor,
com base no texto de Fair (2024)
O ciclo acima, embora
muitas vezes aplicado para grupos terroristas, pode ser ideal para compreender
entidades fundamentalistas apresentadas acima. Por exemplo, se pretendermos analisar o conflito actual (Março de 2026)
entre Israel-EUA contra Irão, iniciado pelos aliados Israel-EUA, percebe-se
que o (i) gatilho despertado nos
lideres dos dois países consiste no argumento teológico da vinda de Jesus, e
esse argumento foi (ii) aceite pelos
respectivos lideres que começaram a fazer (iii)
advocacia do mesmo, por meio de discursos públicos e aparições com lideres
religiosos, até se (iv) efectivar o
ataque de 28 de Fevereiro contra Irão.
O mesmo exercício vale
para o Irão, que tendo uma liderança sensível a ideias fundamentalistas pode
ter tido o gatilho nas invasões americanas ao médio oriente nas décadas 90 e
2000, e advocacia foi feita na medida em que passou a considerar os EUA como o “Grande
Satanás” e Israel como o “Pequeno Satanás”, e a efetivação foi a retaliação do
ataque que sofreu.
4. Nota Conclusiva
Ao fim deste exercício
analítico é importante destacar a proximidade dos conceitos fundamentalismo,
radicalismo, extremismo e até terrorismo[15].
São conceitos conectados, certo cada um têm suas peculiaridades, porém
dificilmente podem ser desassociados, sobretudo quando se procura perceber uma
acção violenta com base fundamentalista. Isso é, as ideias fundamentalistas e extremistas, precisam de um processo de
radicalização para que possam ser implementadas na prática, resultando muitas
vezes em acções terroristas.
No contexto actual da
guerra entre Israel-EUA contra Irão, percebe-se que o fundamentalismo é uma
realidade nos três Estados. Neles todos, encontramos também ideias extremistas
e radicais que têm sido instrumentalizadas para acção prática e concreta com
objectivos políticos. O próprio início da guerra actual entre EUA-Israel versus Irão, é baseada em ideias
fundamentalistas que foram radicalizadas até a efectivação dos ataques de 28 de
Fevereiro de 2026.
Um elemento de
atenção: as decisões politicas influenciadas por ideias fundamentalistas não
são sempre significado da crença de quem lhas toma. Líderes como Donald Trump e
Benjamin Netanyahu, podem não acreditar nos textos sagrados que referenciam
suas decisões políticas, mas pelo ganho político que advém de tais decisões, fazem
uso apropriativo desses textos sagrados.
Por fim, a presença do
fundamentalismo nas hostes de Actores Estatais coloca desafios a noção
westfaliana de relações internacionais, embora ainda sejam necessário mais estudos
aprofundados para perceber a complexidade do fundamentalismo nos diferentes
Estados do Sistema Internacional Westfaliano. De qualquer forma, é uma afronta
teórica à Vestefália e uma oportunidade para sofisticar a noção de Estado-nação
o facto de unidades políticas ocidentais aproximarem-se mais à Teocracias do
que Democracias.
A isso se relaciona o
fundamentalismo existente nos actores não-estatais que vão usar também ideias
tidas como sagradas para legitimar suas ações. Portanto, percebemos nos três
exemplos de actores não-estatais que os grupos fundamentalistas que actuam
dentro dos Estados pós-coloniais africanos têm limitado o poder desses Estados.
Mas só limitam porque os Estados africanos, na sua maioria são seculares e
laicos, westfalianos. Se as ideias desses grupos forem abraçadas pelos Estados,
o Estado torna-se teocrático, tal como sucedeu no Irão que até 1979 era um
Estado secular.
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evangélicos
[Motion Picture].
UOL Prime, U. P. (Director). (2022). "Bolsonaro
é um fenômeno": Claudio Duarte fala
[1]
Foram guerras movidas
por causas nacionais, principalmente por motivos religiosos.
[2]
Actores não estatais, no estudo das relações internacionais, são aqueles que
não se enquadram na definição de Estado, tais como: Organizações Internacionais
(OI), Organizações Não Governamentais (ONG), Empresas Multinacionais,
Indivíduos.
[3]
O rigor metodológico exigiria que para cada conceito se fizesse um debate
etimológico, conceptual, contextual e operacional, porem, aqui se deliberou no
conceito mais adequado para a realidade Africana – o que pode suscitar criticas de um excessivo
subjectivismo; mas as ciências sociais são susceptíveis de tal consideração.
[4]
Tradução livre: “Fundamentalismo é um tipo de movimento conservador
caracterizado pela advocacia de conformidade estrita com textos sagrados.
Inicialmente foi usado para referir-se para Protestantes Americanos que insistiam
na infalibilidade da Bíblia, o termo fundamentalismo foi aplicado mais
amplamente ao fim do século 20 para vários movimentos religiosos. Na verdade,
num sentido amplo, muitas das actuais religiões tem movimentos
fundamentalistas”.
[5]
Curtis Lee Laws foi dos primeiros pastores a usar o termo, e depois A. C. Dixon
e R.A. Torey publicaram “The Fundamentals”, uma obra sobre princípios
religiosos.
[6]
Aqui vale lembrar que o actual Secretário de Guerra dos EUA terá mencionado em
2018 que a expansão do Estado de Israel é um milagre, e que não via obstáculo
para a construção do Terceiro Templo.
[7]
Estado-nação é a organização política, populacional e territorial que se baseia
em aspectos seculares para sua constituição. Assim, muitas vezes usamos apenas
a palavra Estado, para nos referirmos ao Estado-nação. Quanto aos componentes,
resumidamente, um Estado deve ter (i) povo, (ii) território e (iii) poder
político organizado; mas, no domínio das relações internacionais um quarto
elemento se faz pertinente: (iv) ser reconhecido por outros Estados. Por seu
turno, nação-Estado é a organização política, populacional e territorial que se
baseia em aspectos nacionais e culturais para sua constituição. Os elementos de
composição do Estado nacional são extensivos para nação-Estado. Historicamente,
o caso dos Estados Unidos da América (EUA), principalmente depois da guerra de
secessão, exemplifica o Estado-nação. Para o caso da nação-Estado, o caso de
Israel é exemplo flagrante.
[8]
Os conflitos Israelo-Árabes são um conjunto de guerras entre Israel e os
Estados Árabes do Médio Oriente, como Egipto, Iraque, Jordânia e Síria. Esses
conflitos podem ser resumidos em quarto: Primeira Guerra Israelo-Árabe (1948),
Guerra de Suez (ou crise do Canal de Suez) que incluiu a participação do Reino
Unido e França (1957), Guerra dos Seis dias (1967) e Guerra de Kippur (1973).
[9]
Na tradição judaica, Amalek é uma tribo que atacou judeus durante o exilio
desses no Egipto.
[10]
Entrevista concedida ao jornalista americano Tucker Carlson.
[11]
Índia e Paquistão foram colonizados pelo Reino Unido até meados do século
passado (1947) quando alcançaram a independência. Um dos aspectos que ditou a
separação dos dois territórios foi a necessidade de criar-se um Estado para
muçulmanos (Paquistão) e outro para Hindus (Índia).
[12]
No dia 8 de janeiro de 2022 ocorreu o que ficou conhecido como invasão a sede dos
três poderes. Nesse evento, populares apoiantes de Jair Bolsonaro invadiram a sede
dos Poderes Judicial, Executivo e Legislativo em Brasília como reivindicação do
que percebiam ser injustiça nos resultados eleitorais que davam vitória ao Presidente
Lula da Silva.
[13]
Perceba-se terrorismo como o uso ou ameaça de uso da forca para conseguir
ganhos políticos.
[14]
Com pouca excepção, todos os grupos, Estatais e não estatais arrolados neste
documento podem ser enquadrados como terroristas, se lembrarmos de que
terrorismo significa fazer uma acção com recurso ou (ameaça de uso) da forca
para obter ganhos políticos.
[15]
Sobre o terrorismo por exemplo, ele é um conceito presente no actual conflito
ente Israel-EUA contra Irão. Por um lado, EUA e Israel acusam Irão de ser
financiador do terrorismo internacional, pelo apoio que oferece a grupos
(terroristas, par o Ocidente; de Resistência para o Oriente) como Hamas ou
Hezbollah. Por outro lado, Irão acusa EUA de terrorismo pelo bombardeamento a
uma escolar civil aonde estudavam cerca de 150 crianças neste mês de maio
de2026, além de outro bombardeio para uma estação de dessalinização que
condiciona o fornecimento de água potável à aldeias iranianas.
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