Por que Rússia e China não Intervêm Directamente no Conflito Israel-EUA versus Irão?
A 28 de Fevereiro de 2026, Israel e Estados Unidos da América (EUA) começavam um intenso ataque contra a República Islâmica do Irão (Aljazeera, 2026). Esses ataques, que segundo o Presidente Norte-Americano visavam defender o povo americano da ameaça iraniana, enquanto Israel considerava estar a efectuar um ataque preemptivo contra a ameaça existencial iraniana (Ott, 2026). Irão retaliou atacando alvos norte-americanos e israelitas. Assim, bases norte-americanas no Kuwait, Arábia Saudita, Bahrain, Jordânia, Qatar e Emirados Árabes Unidos foram atacados pelo Irão (Mayes-Osterman, 2026), em resposta à agressão e violação do Direito Internacional Público por parte de Israel e dos EUA.
Entrementes, nos debates que norteiam a guerra entre Israel-EUA e Irão, surge a questão: “por que Rússia e China não participam da guerra ao lado do Irão?”. Essa questão baseia-se no pressuposto de que Rússia e China são aliados do Irão. Pressuposto que encontra respaldo no facto de serem todos membros do fórum BRICS + e, sobretudo, terem levado à cabo exercícios militares conjuntos (Gun, 2025). Porém, essa questão pode não ser de todo legítima.
Daí a necessidade desta exposição, porquanto ela se mostra pertinente para relativizar o argumento dos detratores de Moscovo e Beijing. Esses detratores consideram que Moscovo e Beijing não são aliados confiáveis, porque não se envolvem directamente nos conflitos de seus aliados. A título de exemplo menciona-se o “abandono” a Venezuela de Maduro, ou Síria de Assad. Abaixo alguns elementos que facilitam a percepção do “não envolvimento directo e aparente da Rússia e da China”.
1. Definição de Aliado diferente entre EUA, Rússia e China
A questão acima é muitas vezes feita tendo em conta a noção ocidental de aliado, sobretudo na relação Israel-EUA. Isso é, se pega nessa aliança e procura-se perceber o por que de não existir uma aliança China-Irão, ou Rússia-Irão. Aqui, importa primeiro lembrar que no caso de Israel, seus cidadãos estão fortemente impregnados na vida Politica dos Estados Unidos da América de tal forma que por vezes há uma confluência entre a Politica Externa de Israel e a Politica Externa dos EUA. Por exemplo, o grupo de pressão lobista AIPAC (American Israel Public Affairs Committee) tem forte influência sobre os políticos norte-americanos, ainda mais sobre os Republicanos, como o é Trump. Contudo, o mesmo não se verifica no caso do Irão. Se Israel consegue influenciar a Politica Externa norte-americana, Irão não consegue influenciar a Politica Externa russa nem chinesa. A noção de aliado é diferente, no caso Israel-EUA e no caso Irão-Rússia ou Irão-China. EUA estão no conflito para defender seu aliado natural (e/ou vital); para Rússia, nem para China, Irão não é um aliado natural, muito menos vital.
2. Histórico de Intervenção estrangeira diferente
Em continuidade com a comparação sobre o apoio que Israel está a receber, podemos mencionar o facto de os EUA terem uma longa história de intervenções externas. Por exemplo, depois da segunda guerra mundial, os EUA intervieram no Vietname, Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Sudão, seja por meio de “boots on the ground” (tropas no terreno – intervenção directa, de ocupação) ou bombardeios. Note-se que a maioria desses Estados onde os EUA efectuou intervenções está localizado no médio oriente; provavelmente pela necessidade de proteger Israel, provavelmente pela existência de petróleo no Médio Oriente.
Contrariamente, a Rússia interveio militarmente no Afeganistão, Geórgia, Chechênia e Ucrânia. Importa destacar que todos esses Estados e territórios estão localizados na periferia do território russo. Finalmente, a China não tem registo de intervenção militar fora do seu território, senão disputas pontuais e localizadas com Filipinas, Japão e Índia (região da Cachemira). Vale notar aqui a predisposição dos EUA actuarem militarmente mesmo longe de suas fronteiras, o que não sucede nem com a China e nem com a Rússia. Estes dois últimos parecem apenas intervir militarmente nos territórios que histórica ou geograficamente sejam parte de suas zonas de influência.
Entretanto, existe um contra-argumento que problematiza o não intervencionismo russo, Pode-se citar o então grupo Wagner, actual Africa Corps para considerar que a Rússia também faz a intervenções em terras longínquas, como sucede/u no Malí ou República Centro Africana (RCA). Mas esse contra-argumento teria limitação, porquanto o grupo Wagner intervém ao lado dos governos legais, eventualmente não legítimos, mas legais, desses Estados. O que é diferente de atacar outro Estado, violando a soberania e o principio-mor do Direito Internacional Público: Não Interferência nos Assuntos Internos dos Estados.
3. Presença Militar na Região
Os EUA possuem inúmeras bases militares na região, o que facilita sua acção. Enquanto Rússia e China não tem a mesma capacidade operacional. Globalmente, os EUA têm cerca de 700 Bases Militares em mais de 80 países. (The Global Statistics, 2025). Regionalmente, Estados como Kuwait, Bahrein, Egipto, Arábia Saudita, Turquia, Qatar, abrigam bases militares norte-americanas. Rússia tem, por outro lado, uma dezena de bases militares no estrangeiro, com destaque para sua base logística na Síria (Fandom).
Nota-se que com excepção da base na Síria, a maioria das bases russas no estrangeiro está na periferia do seu território, nas antigas repúblicas soviéticas. Por fim, a China tem presença militar estrangeira muito limitada; efectivamente além de posicionamento militar pontual na Tanzânia, Sri-Lanka, Paquistão, Maldivas e Myanmaar, China tem uma base militar no Djibuti (Eurasian Research Institute, 2020). Portanto, essa discrepância na presença militar estrangeira evidencia a facilidade dos EUA envolverem-se em conflitos globais, de forma directa, relativamente à China e Rússia.
4. Processos Políticos Internos – Diversão (Diversion)
Os EUA vão realizar eleições intermedias neste ano e o Presidente Donald Trump tem sua popularidade relativamente baixa, o que pode comprometer os resultados do seu partido. Segundo o Jornal The New York Times, Donald Trump conta com 42% de aprovação e 56% de desaprovação entre os americanos, o que pode causar uma eventual “derrota” dos Republicanos nas chamadas “midterm elections”, isso é, eleições de meio de mandato, que definem a composição da Casa dos Representantes e do Senado americano (The New York Times, 2026).
Ora, uma guerra é a forma mais tradicional de unir o país debaixo da liderança do líder político, daí a apetência de Trump pelo conflito, que se materializarem objectiva como mudança de regime teria impacto directo nos ratings sobre Trump. Aliás, o próprio Trump teria afirmado em 2011 que “Barack Obama era um homem muito fraco e que para manter-se no poder pretendia fazer guerra contra Irão” (TrtWorld, 2026 ) – da ironia política actual.
Claramente, isso se associa ao timing e contexto politico interno no Irão, caracterizado por significativo descontentamento da população, em função do que parece ser gestão deficiente dos recursos públicos por parte do governo iraniano. Esse descontentamento gerou ondas de manifestações há pouco controladas, de forma quase repressiva, pelo governo do Irão. Assim, Trump conta com esse “apoio” da população para facilitar o regime change no Irão.
Destarte, não se pode descartar o escândalo de pedofilia que se associa a figuras como Trump: Epstein files. Esse escândalo que mina a condição moral e política de Donald Trump tem sido desviado pelo mesmo. Tanto é que recentemente o Presidente norte-americano fez postagens racistas sobre o casal Obama na sua conta oficial na rede social Truth, para eventualmente também desviar a atenção que recai sobre ele como um dos perpetradores de actividade pedófila organizada por Jeffrey Epstein.
Finalmente, os pontos elencados acima não devem ser vistos de forma isolada, mas interelacionada e cumulativa. Então, é provável que China e Rússia não participem directamente por não terem presença militar suficiente na região, motivações politicas internas razoáveis e não definirem Irão como aliado necessário para a existência dos respectivos Estados. Porém, mesmo se for esse o caso, não se descarta a possibilidade de apoio discreto e não aberto da Rússia e China para o Irão, incluindo apoio tecnológico.
Bibliografia
Aljazeera. (28 de Fevereiro de 2026). Why are the US and Israel attacking Iran? What we know so far. Acesso em 01 de Março de 2026, disponível em www.aljazeera.com: https://www.aljazeera.com/news/2026/2/28/us-and-israel-attack-iran-what-we-know-so-far
Eurasian Research Institute. (2020). Chinese Overseas Military Bases: National Interests and Global Ambitions. Acesso em 02 de Março de 2026, disponível em www.eurasian-research.org: https://www.eurasian-research.org/publication/chinese-overseas-military-bases-national-interests-and-global-ambitions/
Fandom. (s.d.). List of Russian military bases abroad. Acesso em 01 de Março de 2026, disponível em www.fandom.com: https://military-history.fandom.com/wiki/List_of_Russian_military_bases_abroad
Gun, N. (03 de Março de 2025). Iran, China and Russia launch annual joint naval drills as Trump upends Western alliances. Acesso em 01 de Marco de 2026, disponível em CNN: https://edition.cnn.com/2025/03/10/asia/iran-china-russia-joint-navy-drills-intl-hnkk
Mayes-Osterman, C. (2026). What US bases did Iran target? Were any Americans killed? Acesso em 01 de Março de 2026, disponível em www.usatoday.com: https://www.usatoday.com/
Ott, H. (01 de Março de 2026). Trump announces "major combat operations" in Iran. Watch the full video and read his statement. Acesso em 01 de Marco de 2026, disponível em www.cbsnews.com: https://www.cbsnews.com/news/trump-full-statement-on-us-iran-attack-major-combat-operations/
The Global Statistics. (2025). Military Bases in US 2025 | Stats & Facts about Military Bases. Acesso em 02 de Março de 2026, disponível em www.the globalstatistics.com: https://www.theglobalstatistics.com/united-states-military-bases/
The New York Times. (01 de Marco de 2026). President Trump’s Approval Rating: Latest Polls. Acesso em 01 de Março de 2026, disponível em www.nytimes.com: https://www.nytimes.com/interactive/polls/donald-trump-approval-rating-polls.html
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