Guerra Israel-EUA versus Irão: Das Causas às Consequências Para a Segurança Internacionais
A guerra é um conflito violento onde duas ou mais partes antagônicas procuram submeter o adversário ao seu objetivo. E elas, as guerras, têm sempre implicações, consequências, resultados das acções das partes envolvidas. E esses resultados afectam não só as partes envolvidas mas também outras que não estejam envolvidas no conflito violento. As guerras têm implicações sobre a Segurança Internacional. E sobre a Segurança Internacional, importa notar que:
(...) também chamada de segurança global, é um termo que se refere às
medidas tomadas por estados e organizações internacionais, como Nações Unidas,
União Europeia e outras, para garantir a sobrevivência e a segurança mútuas.
Essas medidas incluem ação militar e acordos diplomáticos, como tratados e
convenções. A segurança nacional e internacional estão invariavelmente ligadas.
Segurança internacional é a segurança nacional ou estatal na arena global.
Era importante estabelecer o limite conceptual desses
três conceitos para facilitar a leitura deste artigo. Desde 28 de Fevereiro que
o médio oriente enfrenta um conflito com tendências a escalar-se globalmente.
Trata-se da guerra entre Israel e Estados Unidos contra Irão. Uma guerra que,
certo começou neste ano, de forma aberta, mas tem raízes históricas, próximas
como a guerra dos 12 dias (2026), ou longínquas como a Revolução Iraniana (1979).
Importa então atentar para a influência desses eventos históricos sobre o
actual conflito.
1. Antecedentes
da guerra Israel-EUA versus Irão
O conflito que envolve Israel e Estados Unidos contra Irão
não começa em 2026, como afirmado acima. Há elementos passados que ajudam a
compreender os acontecimentos belicosos de hoje. Primeiro, a Revolução Islâmica
de 1979. Em 1979, Irão vivenciou o que se veio chamar de Revolução Islâmica,
quando Aiatolá Khomeini liderou manifestações contra o governo liderado por Xa
Reza Pahlavi. Depois da revolução, Irão adoptou uma postura de confrontação
para o Ocidente, liderado pelos EUA. Segundo, o enriquecimento de Urânio por
parte do Irão é percebido por Israel como uma ameaça existencial, pela
rivalidade geopolítica existente entre os dois; e se Israel percebe Irão como
ameaça existencial, por consequência, os EUA fazem o mesmo. Terceiro, o Irão
apoia movimentos revolucionários no Líbano (Hezbollah) e na Faixa de Gaza
(Hamas), que se opõem à Israel. Moimentos revolucionários que aos olhos de
Israel e EUA são grupos terroristas. Todos esses elementos criam espaço fértil
para confrontação violenta entre os actores acima.
2. Partes
da guerra Israel-EUA contra Irão
Todos os conflitos têm partes, actores; importa-nos
então distinguir as partes primárias das partes secundárias. As partes
primárias estão diretamente envolvidas no conflito, sem elas o conflito não
acontece. Enquanto as partes secundárias apoiam a permanência do conflito, elas
ajudam uma ou outra parte primária. O quadro abaixo apresenta dois lados,
liderados pelos EUA e Irão, tendo ambos apoiantes, directos e indirectos, com
objetivos declarados e operacionais no conflito. Nota que muitas vezes, EUA e
Israel podem equivaler-se.
Tabela 1: Partes
do Conflito
|
Partes primárias |
|||
|
Estado/ Entidade |
Interesse |
Estado/ Entidade |
Interesse |
|
Estados Unidos
da América |
·
Ajudar Israel; ·
Fazer Regime Change no Irão; ·
“Democratizar
Irão”. |
Irão |
·
Manter a
actual estrutura ideológico-política no poder; ·
Ter soberania
sobre o enriquecimento do uranioo. ·
Resistir ao
“imperialismo” americano. |
|
Israel |
·
Fazer Regime Change no Irão; ·
Ser Potencia
Hegemônica Regional. |
||
|
Partes secundárias |
|||
|
Países da NATO
e Europa Ocidental |
·
Não participar
diretamente na guerra; mas favoráveis à um Regime Change no Irão. |
Rússia |
·
Beneficiar-se
da “distração” face ao conflito Russo-Ucraniano. ·
Manter o
actual governo no Irão. |
|
Países do
Golfo Pérsico e Monarquias Árabes do Médio Orientem |
·
Evitar destruições
de infraestruturas criticas; ·
Favoráveis a
um Regime Change no Irão (Mais para
o enfraquecimento do que propriamente queda do actual governo) |
China |
·
Conhecer as
estratégias militares, politica e econômicas dos EUA em situações de guerra; ·
Manter o
actual governo no Irão. |
|
|
|
Hezbollah |
·
Aproveitar-se
da guerra para dominar o sul do Líbano. |
|
|
|
Hamas |
·
Enfraquecer
Israel e recuperar domínio da Faixa de Gaza. |
|
Paquistão |
·
Conseguir um
acordo sólido e duradouro entre as partes; ·
Fazer parte da
história do Médio Oriente de forma positiva, contribuído para o fim de um
conflito com implicações globais. |
||
Fonte:
Elaborado pelo Autor
3. Causas
Olhar para as causas da guerra é um exercício
complexo, porém, os níveis de analise ajudam a descomplexificar. Aqui,
separamos três principais níveis: individual, estatal e sistêmico. Nesse
diapasão, importa trazer o pensamento de Mingst[1],
citado por Dalprá e Da Silva (2023), que considera o seguinte:
[O] indivíduo falho no estado de natureza luta
pela autopreservação; (...) o Estado autônomo e unitário está constantemente
envolvido em lutas pelo poder, equilibrando poder com poder e reagindo para
preservar o que é de interesse nacional; e (...) como o sistema internacional é
anárquico - não há nenhum poder mais alto para dar um rim à competição -, a
luta é contínua.
3.1.Níveis
de analise
Podemos perceber os níveis de analise como mecanismo
de compreensão da realidade internacional com base em unidades de analise
parcializadas. A preocupação é perceber “o que causa guerra?”
3.1.1. Individual
Neste caso, o individuo é o centro da analise: a
personalidade, perceção, escolhas, vivências, comportamento, visão do mundo, atividades,
entre outros elementos. Waltz considerava que: “the evilness of men or their improper behavior, leads to war; individual
goodness, if it could be universalized, would mean peace (…)”; resumindo,
se o homem é mau, teremos guerra, se o homem é bom, teremos paz (Ibid).
Tabela 2: Nível
de Análise Individual no Conflito EUA-Israel Contra Irão
|
Estado |
Individuo e Características peculiares |
Influência das características na guerra |
|
|
EUA |
·
Donald Trump: megalomaníaco, convencido no poder global dos EUA e da necessidade de
demonstração de forca (Peace through
war). Frequentemente associa a
atividade de politica externa com a atividade econômica, sobretudo
imobiliária. ·
JD Vance: menos expressivo que Trump, procura a nomeação republicana para as
próximas eleições presidências, por isso adverso à riscos políticos; mas não
quer ser percebido como traidor, abandonando Trump. ·
Marc Rubio: de descendência latina (Cuba), procura provar seu valor como
“americano verdadeiro” num partido relativamente conservador – republicanos,
por isso, disposto a servir juntamente com Trump. ·
Pete Heghseth: instável, militar e defensor da supremacia militar americana associada
a percepção de juntamente com Israel estarem numa “cruzada santa”. |
As perspectivas dos principais líderes
americanos influenciou o comportamento dos EUA para a guerra na medida em
que percebem a necessidade da guerra pela capacidade militar americana e
vontade de participar na história de grandeza desse país. |
|
|
Israel |
·
Benjamim Netanyahu: líder da extrema direita israelita (Likud) mas com casos na justiça,
procura eventos externos para afastar e postergar uma eventual condenação.
Aproveita o alinhamento com o presidente Trump para realizar acções militares
que não conseguiu com outros presidentes americanso. ·
Israel Katz: ministro radical israelita que defende a expansão de Israel para o que
se percebe como Grande Israel. ·
Bem Gvir: um dos principais ideólogos da direita ultrarradical israelita;
percebe a necessidade de Israel tornar-se a potencia regional no médio
oriente. |
Os lideres israelitas, do espectro
politico da direita encopassam parte do pensamento da sociedade israelita e
aproveitam-se do momentum históricos que associa interesses dos lideres
americanos e lideres israelitas para juntamente influenciarem seus Estados a
agirem cooperativamente contra inimigos percebidos como comuns. |
|
|
NATO e Europa |
·
Emanuel Macron: humilhado frequentemente por Trump, não pretende segui-lo cegamente em
aventuras que prejudiquem sua governação internamente. Busca igualmente
demonstrar alguma liberdade de acção do seu Estado. ·
Recep T. Ergogan: muitas vezes apresentando-se como defensor do Islão, aproveita a guerra
para transmitir a ideia de necessidade de união entre os muçulmanos do mundo,
quais pretende liderar. Posições por vezes ambivalentes, por ser membro da
NATO e igualmente de maioria muçulmana. ·
Pedro Sanchez: procura ecoar a opinião da população jovem espanhola que se coloca
contra as acções genocidas de Israel na Faixa de Gaza; coloca-se como a voz
moral e ética do continente europeu. ·
Friedrich Merts: cauteloso, embora pró Israel, procura não reavivar fantasmas do
nazismo. ·
Keir Starmer: procura não envolver o Reino Unido numa guerra infame, considerando o
pouco apoio popular dessa guerra dentro de um contexto de população muçulmana
crescente de forma exponencial no Reino Unido. |
Os lideres da NATO procuram distanciar-se
militarmente do conflito, com exceção de
Portugal. Esse distanciamento acontece sobretudo devido a dinâmicas internas,
porquanto essa guerra é impopular mesmo nos países tradicionalmente aliados
aos EUA. |
|
|
Países do
Golfo e Monarquias |
·
Mohamed Salman: se percebe como modernizador saudita e pretende colocar Arábia Saudita
como potencia regional do Médio Oriente. ·
Mohamed Bin Zayed: procura estabelecer Emirados Árabes Unidos como polo de
desenvolvimento e modernização no médio oriente, mas sem ambições regionais
comparadas à Arábia Saudita. ·
Mohamad Bin Thani: discreto, delega muita responsabilidade de politica externa ao
Ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro-Ministro Sheikh Mohammed bin
Abdulrahman bin Jassim Al-Thani, que coloca Qatar com o papel de “ponte” no
Médio Oriente, aproximando diferentes partes para negociação. |
Os lideres dos países do golfo pretendem proteger
suas economias, num conflito
em que quanto mais escala mais impacta a região que é fortemente dependente
de produção e exploração de recursos fósseis. Igualmente, percebem que
responder aos ataques do Irao seria cair numa armadilha de juntar-se a Israel
e EUA contra Irão, o que pode não ser bem aceite nos seio da comunidade
muçulmana regional e global. |
|
|
Irão |
·
Aiatola Ali Khameini: líder “martirizado” pelos EUA e Israel, relativamente moderado
comparado com outros clérigos. Estabeleceu fatwa contra produção de armamento
nuclear. ·
Aiatola Mojtaba Khameini: filho do líder martirizado, igualmente adverso aos
EUA e provavelmente mais radical, sobretudo pelo contexto em que assume o
cargo supremo. ·
Massoud Prezhan: líder do executivo mas, com poderes limitados pela guarda
revolucionaria. |
Os lideres iranianos actuais e anteriores, desde 1979 partilham uma visão comum do mundo
pouco modificável. São todos antiamericanos e com perspectivas nacionalistas
sob direção do islão. |
|
|
China |
·
Xi Junping: herdeiro de uma filosofia pacifista, apenas recorrendo à guerra em
casos de extrema necessidade; caracter autoritário e com perspectivas de
longo prazo em termos de politica externa. |
Pela vontade
de se tornar grande potencia e pelo histórico de conflitos com os EUA,
incluindo as tentativas americanas de ferir sua economia, Xi ajuda Irão. |
|
|
Rússia |
·
Vladmir Lenin: líder restaurador do orgulho russo com poderes concentrados e uma
filosofia pan-russa e anti- subserviência ao ocidente. |
O caráter
resistente a ordem unipolar liderada pelos EUA faz a com que Putin apoie
Irão. |
|
|
Eixo da
Resistencia (Hezbollah, Hamas, Houthis) |
·
Nassim Qassem: liderado Hezbollah porcura se afirmar, depois da morte de Nassrallah. ·
Abdul-Malik Al Houthi: Líder Houthi que olha para Irão como o representante moderno
pan-islamismo no médio oriente, sobretudo na vertente shita |
Os lideres do eixo da Resistencia (Houthis do Yemen,
Hesbollah do Líbano, Hamas da Faixa de Gaza) percebem Irão como seu digno
representante e apoiador, pelo que poderão juntar-se a guerra em caso de
aumento da escalada. |
|
|
Paquistão |
·
Shehbaz Sherif: o primeiro-ministro paquistanês
procura colocar Paquistão como potencia regional na sua competição com a
Índia, demonstrando capacidades de participar nas discussões dos principais
assuntos globais. |
Beneficiando-se
de boas relações com EUA, e igualmente com Irão, Paquistão, liderado por
Sherif é o mediador com maiores chances de conseguir um acordo sólido entre
as partes. |
|
Fonte:
Elaborado pelo Autor
3.1.2. Estatal
Enquanto a natureza do ser humano dificilmente muda,
as instituições que ele cria, sofrem alterações com o tempo, incluindo o
Estado. Aqui, no nível estatal, importam as características do Estado, os tipos
de governo (democracia/autoritarismo), tipo de sistema económico
(capitalista/socialista), os grupos de interesse existentes no Estado, o
Interesse Nacional e aspectos concomitantes. Waltz baseia-se, maioritariamente,
na teoria da paz democrática. Assim a principal aceção é de que as democracias
não entram em guerra entre si e os regimes autocráticos não podem ser
confiados.
Tabela 3: Características
e Pretensões dos Actores Envolvidos no Conflito Israel-EUA Contra Irão
|
Estado |
Características Internas |
Pretensões Regionais e Globais |
|
EUA |
·
Democracia maioritariamente
bi-partidária (Democratas e Republicanos). ·
Defensor enfermo
do capitalismo e economia de mercado – percebendo-se como legitimo protector
desse tipo de organização econômica. |
·
Potencia
global e igualmente regional no Médio Oriente aonde tem o seu aliado natural
e fiel, Israel; além de outros “protectorados” como as monarquias do Médio
Oriente. ·
Rival do Irão
desde 1979, devido a recusa do Irão em seguir os diktats americanos |
|
Israel |
·
Democracia
multipartidária sem constituição; ·
Percebe Irão e
Eixo da Resistencia como ameaça regional; ·
Uso do
Holocausto como justificativa para medidas extremas contra palestinos e
libaneses; ·
Impulsionou a
assinatura dos Acordos de Abrão para isolar Irão. |
·
Pretende ser a
potencia regional no Médio Oriente e baluarte dos interesses ocidentais; ·
Procura
expandir seu território para parte da actual Síria, Egipto, Jordânia e Arábia
Saudita. |
|
Irão |
·
Percebe-se
como defensor legitimo do Islão contra as agressões externas lideradas pelos
EUA e Israel; ·
Pretende
manter independência na produção do Urânio; ·
Historicamente
oposto a Israel (pós 97) e Arábia Saudita (qual acusa de se ter vendido aos
interesses ocidentais). |
·
Pretende ser a
potencia regional; ·
Não aceita o
domínio regional dos EUA. |
Fonte: Elaborado
Pelo Autor
3.1.3. Sistêmico
No nível internacional, consideram-se a disrupção de
poder, as Organizações Internacionais/regionais (incluindo o poder das mesmas),
as alianças, as normas/regras, e as corporações internacionais. Para este caso,
podemos mencionar que a característica
anárquica[2]
do sistema internacional faz com que cada Estado tome suas decisões
independentemente do Direito Internacional Público, desde que se sinta e seja
poderoso. Por isso os EUA e Israel agrediram o Irão, porquanto não há uma
entidade acima do Estado capaz de moldar o comportamento deste.
Ainda, pode-se olhara para o conceito de Bandwagoning[3],
para caracterizar a relação entre Israel e EUA, embora muito mais complexa do
que pode ser englobada num conceito. Porem, Israel alia-se aos EUA para
conseguir proteção em relação aos seus actos. Proteção com o veto dos EUA na Organização
das Nações Unidas (ONU), ou proteção militar, como por exemplo, em apoio
operacional tal como sucede na actual guerra.
O conceito de Balance of Power[4]
pode ser aplicado para caracterizar as alianças do Irão, que por meio do Eixo
da Resistencia procura reduzir o poder de Israel e Arábia Saudita (sobretudo no
Iêmen) no Médio Oriente. Quanto as Organizações
internacionais, essas estão relativamente enfraquecidas, pois não conseguem
influenciar o rumo dos acontecimentos no Médio Oriente: nem a ONU, nem a North Atlantic Treaty Organization (NATO),
muito menos a Organização de Cooperação Islâmica (OCI) ou a Liga Árabe.
Por fim, nota-se neste conflito que a mudança na distribuição de poder pode estar a ser
acelerada. De uma ordem multipolar (antes de 1945) o Sistema Internacional
vivenciou uma ordem bipolar (1945-1991) opondo os EUA à União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS), depois Uni-polar (1991-2014) liderada pelos EUA,
e actualmente pode-se caracterizar como difusa, pois os EUA não conseguem de
forma unilateral influenciar os acontecimentos em todo o sistema internacional,
a qualquer momento e sob todas as formas. Nota-se nos dias que correm, a
capacidade do Irão, uma média potencia em limitar as acções e pretensões de uma
grande potencia (EUA) juntamente com uma media potencia (Israel).
4. Contornos
e Consequências
Os contornos referem-se ao que acontece durante a
guerra. Porém a actual guerra não terminou ainda, por isso, os acontecimentos
não estão finalizados, nem as consequências são permanentes: do interesse de
acoplar contornos e consequências. As consequências de uma guerra, tal como
suas causas, dificilmente são unidimensionais. Assim, existem diferentes
consequências que advém dessa guerra, tal como consequências econômicas,
político-diplomáticas, militares. Esses todos elementos são parte da segurança internacional.
4.1.Escalada
Escalada significa, neste contexto, o desenvolvimento
incontrolável da guerra. Isso é, para uma guerra que se pretendia controlada,
começa a se mostrar descontrolada. E a escalada consistiu, por exemplo, nos
ataques que o Irão efectuou contra outros Estados do Médio Oriente que não
estavam originaria e diretamente envolvidos na guerra. Ainda, parte da escalada
inclui a agressão de Israel contra o Líbano
Aqui, importa olhar para a possibilidade da transição
do canal Bad-El-Mandab próximo do Iêmen e Djibuti for condicionada pelos
Houtis. Sendo que parte significativa do comércio de Israel é feito por esse
Canal, além de que este canal permite a transição de quase 10% do Comércio
Internacional. Então, numa situação descontrolada de escalada, o comercio
global pode ser severamente afectado.
4.2.Mortos
O conflito já causou inúmeros mortos em diferentes
Estados, não apenas naqueles diretamente envolvidos na guerra, o que se
relaciona com a escalada. Com base em dados da Al-Jazeera, Forcas de Defesa de
Israel, Governo Americano e Ministério da Saúde do Irao, a guerra resultou nas
seguintes fatalidades, até 18 de Abril:
Tabela 4: Dados
Sobre Mortes e Feridos Por País Resultante da Guerra EUA-Israel Contra Irão.
|
País |
Militares |
Civis |
Total de Mortos |
Feridos |
|
Irão |
244 |
1.200 |
1.444 |
18.551 |
|
Israel |
10 |
5 |
15 |
120 |
|
EUA |
13 |
0 |
13 |
140 |
|
Líbano |
0 |
687 |
687 |
2.800 |
|
Estados do Golfo |
3 |
16 |
19 |
245 |
|
Iraque |
0 |
27 |
27 |
140 |
|
Yemen |
0 |
6 |
6 |
21 |
Fonte:
Missile Strikes
Com base nos dados acima se percebe que a guerra já
causou mais de dois mil (2.000) mortos, cumulativamente. Sendo o irão o país
com o maior numero de vitimas, mortais e feridos. Segue o Líbano e depois as
vitimas distribuem-se proporcionalmente entre os outros Estados.
4.3.Destruição
de Infraestruturas na Região
Os ataques dos EUA e Israel destruíram infraestruturas
de gás, militares (navios, escolas no Irão; porém, de forma inversa, os ataques
do Irão destruíram infraestruturas hoteleiras, portuárias e rodoviárias nos
países vizinhos, hospedeiros de Bases Americanas (BBC, 2026). Percebe-se então
que até ao presente momento, a guerra tem um forte impacto na destruição de infraestruturas,
sejam petrolíferas, rodoviárias, militares e até civis. “No geral, os
principais alvos foram as bases norte-americanas que se encontram na região,
mas outras locações importantes também foram atingidas, como um aeroporto e o
Instituto de Segurança Social em Kuwait, e uma planta de dessalinização de água
no Bahrein”.
A destruição causada pela guerra já criou
desempregados, perca de infraestruturas civis e um prejuízo de cerca de 145
biliões de dólares no Irão, aonde a destruição é maior
4.4.Subida
de preços de combustíveis
A subida dos preços de combustíveis é das implicações
mais significativas para a Segurança Internacional, porquanto por meio dessa
subida ocorrem subidas em outros sectores e produtos, de forma sequenciada.
Isso é, a via torna-se mais cara, e tornando-se mais cara há mais propensão
para crimes, desordem social entre outros desafios dentro dos Estados. Mas esses
desafios que ocorrem dentro dos Estados facilitam que os governos usem a “fuga
para frente” e encontrem inimigos externos o que pode ocasionar conflitos
regionais. Tudo isso considerando que mais de 20% da produção global de Petróleo
passa pelo estreito de Ormuz, que tem sido fechado pelo Irão, em função de suas
demandas na guerra.
Nos EUA, preços de combustíveis e gasolina atingiram
recordes altos durante o corrente mês de abril
Por fim, há igualmente o risco de especulação por parte
de entidades ligadas ao ramo de exploração, produção, distribuição e venda de
combustíveis. Esse risco advém do facto de, com a guerra saber-se o impacto
para a circulação de combustíveis e dai inferir-se que todo mundo poderá sofrer
restrições no fornecimento de combustíveis, logo a necessidade de aumentar o preço
ou racionalizar a distribuição. Contudo não é todo o planeta que recebe
diretamente o combustível proveniente do Irão
4.5.Mudanças
Geopolíticas
Até agora a principal mudança geopolítica do conflito
é a redução da percepção de poder dos EUA, na medida em que antes da guerra,
supunha-se que os EUA conseguiriam rapidamente alcançar seus objectivos no
Irão, o que não sucedeu. Até ao momento o Irão é principal vencedor desse
conflito por duas razoes: primeiro a resistência em face de uma das maiores
potencias militares globais juntamente com uma das potencias militares e tecnológica
da região do Médio Oriente. Segundo, por controlar o Estreito de Hormuz. Esses
dois elementos juntos demonstram a capacidade resiliente do governo Iraniano
que estava aparentemente enfraquecido depois dos últimos protestos
antigovernamentais.
Ainda, geopoliticamente, este conflito poderá
significar a renuncia da presença estratégica dos EUA no Médio Oriente,
porquanto com suas bases destruídas, suas capacidades militares foram colocadas
em xeque, e dependendo do desenrolar das negociações essas posições antes
ocupadas pelos EUA poderão passar para outros actores com interesse na região,
como Turquia, China e Rússia, e eventualmente alguns países europeu (França,
Itália, Reino Unido e Alemanha).
Resumidamente, hoje, no Médio Oriente, a posição
americana é mais fraca que antes da guerra
Ora, houve uma danificação
moral da posição internacional dos EUA. Porquanto a guerra, além de não ser
legal, foi moralmente injustificável sem motivo claro e com violações do
Direito Internacional claras por pare dos EUA. Adicione-se aqui o comportamento
errático e imprevisível dos EUA num Sistema Internacional que vale por sua
previsibilidade. Houve igualmente danificação
econômica da posição americana, sendo que nos EUA, o preço do combustível
passo de 2USD para 4USD por litro. Por fim, estima-se que os EUA gastaram cerca
de 33USD Biliões neste conflito. Estrategicamente,
os EUA também perderam, pois, eliminando figuras relativamente mais
moderadas, hoje Irão é liderado por oficiais relativamente mais radicais, sendo
que os objetivos da guerra não foram alcançados.
5. Cenários
Globais
Os cenários são um instrumento analítico em Relações
Internacionais que permitem perspectivar o desenvolvimento de diferentes
assuntos. Assim, os cenários abaixo relacionam-se com a Segurança
Internacional, classificados em Ótimo, Moderado e Péssimo. Isso é, quais
situações seriam ótimas, moderadas ou péssimas para a Segurança Internacional.
5.1.Cenário
Ótimo
Negociações bem-sucedidas entre Irão e Israel,
mediadas por um terceiro confiável, no caso Paquistão, levando à desescalada e
acordos duradouros, envolvendo outros actores regionais como Hezbollah, Hamas e
os Houtis. Embora difícil de ser alcançado nas condições actuais (sobretudo
envolvendo o Eixo da Resistencia nos Acordos – pela intransigência de Israel),
um acordo que agrade não apenas EUA e Irão, mas igualmente Israel, Hezbollah,
Hamas e os Houtis, séria extremamente benéfico para a paz e segurança regional
e internacional. Este acordo deveria incluir, por exemplo:
i)
Direito
internacional de passagem do Estreito de Ormuz;
ii)
Respeito
pela soberania energética do Irão (enriquecimento de Uranio) com o compromisso
claro do Irão de não começar um ataque nuclear contra Israel;
iii)
Reconhecimento
dos Houtis como governo do Iêmen;
iv)
Desocupação
de Israel no Sul do Líbano e permissão das atividades políticas do Hezbollah;
v)
Retirada
de Israel da Faixa de Gaza e compromisso de respeito as fronteiras de 1967,
incluindo na Cisjordânia.
5.2.Cenário
Moderado
O conflito permanece contido dentro das fronteiras
econômicas e militares dos principais intervenientes (EUA, Israel e Irão) sem
escalada e com cessar-fogo ocasionais permitindo um avanço paulatino para um
acordo mais durável. Neste cenário, a passagem pelo Estreito de Hormuz
continuaria a ser feita de forma intercalada, com períodos de abertura e fecho
em função das dinâmicas do conflito. Israel e EUA continuam a atacar Irão, com
respostas pontuais do Irão até alguma exaustão das partes. Paralelamente,
esforços internacionais continuam para o alcance de uma paz durável, incluindo
por meio da ONU.
5.3.Cenário
Péssimo
Um cenário péssimo incluiria uma escalada
descontrolada do conflito, envolvendo outros actores regionais de forma mais
directa. Aqui, Arábia Saudita, Kuwait e Qatar poderiam juntar-se aos EUA para
atacar Irão, ocasionando uma ação retaliatória ainda mais forte e incluindo
todos os integrantes do Eixo da Resistencia, ataques para infraestruturas civis
como a indústria de dessalinização, aeroportos e centros energéticos.
Ocasionalmente a degradação deste cenário incluiria a participação do Reino
Unido e Alemanha ao lado dos EUA e uma participação mais aberta da Rússia e
China ao lado do Irão. Este cenário incluiria, por exemplo, o bloqueio paralelo
do Estreito de Hormuz e do Estreito Bab-El-Mandab.
Imagem 1: Estreitos de Hormuz e Bab-El-Mandab
Fonte: Google (ChatGtp,
2026)
6. Conclusão
Face ao exposto acima, podemos considerar que a guerra
de escolha dos EUA tem como principal causa a percepção de Israel e EUA de que Irão
é uma ameaça aos respectivos interesses no Médio Oriente. Entretanto essa
percepção não é actual. Desde 1979, com intervalos curtos, o Ocidente Coletivo,
mas sobretudo os EUA e Israel percebem Irão como inimigo, por isso o conjunto
de sanções ocidentais contra o Irão. Contudo, a combinação de Trump-Netanyahu
como líderes dos EUA e Israel mostrou-se como timing perfeito para que o ataque dos EUA acontecesse, pois as
convicções pessoas desses lideres, incluindo o uso da religião para benefícios
pessoais e procura de legado histórico mostraram-se incontornáveis para levar
seus países à guerra. Do outro lado, lideres iranianos como Khomeini percebem
estar igualmente numa missão histórica, civilizacional de luta contra o
imperialismo e diktat ocidental.
Essa confrontação das cosmovisões entre as partes se
mostra fundamental para perceber a ocorrência do actual conflito. Acrescente-se
igualmente a percepção dos EUA e Israel de que após os protestos ocorridos no
Irão ao fim do ano passado (2025) e inicio deste ano (2026) enfraqueceram o
governo iraniano e bastava assassinar a liderança para criar a possibilidade de
mudança de regime. Do lado iraniano, a guerra mostrou-se uma boa oportunidade
para reforçar a autoridade regional mas também interna.
Ao fim deste exercício percebe-se que os EUA tem sido
e provavelmente serão o principal perdedor deste conflito. Os EUA não
conseguiram alcançar os objetivos de sua guerra de escolha (Regime Change, ou obliteração das
capacidades militares do Irão), perderam equipamento militar caro, bases
militares mas sobretudo vem perdendo a superioridade moral que caracteriza uma
Democracia respeitante de Direitos Humanos, pelos crimes de guerra que comete
neste conflito (ataque à infraestruturas civis e ameaça de destruição
civilizacional). Irão, por outro lado, sai vencedor desta guerra, se
considerarmos que a guerra é a continuação da política por outros meios, tal
como informava Clausewitz, pois agora controla efetivamente o Estreito de
Hormuz, mantem o governo ainda operacional e forcou negociação com os EUA não
aceitando uma rendição incondicional.
7. Referencias
bibliográficas
Al Arabiya English. (2026). Iran suffers $145 bln
losses, widespread destruction after 40-day war. Acesso em 2026 de Abril
de 2026, disponível em alarabiya.ne:
https://english.alarabiya.net/News/middle-east/2026/04/10/iran-suffers-145-bln-losses-widespread-destruction-after-40day-war
BBC. (8 de Abril de 2026). Why did US and Israel
attack Iran and how long could the war last? Acesso em 18 de Abril de
2026, disponível em bc.com: https://www.bbc.com/news/articles/cx2dyz6p3weo
Biswas, S. (15 de Abril de 2026). $5 Diesel, $4
Gas: Fuel Costs Explode Across US Amid Iran War. Acesso em 18 de Abril de
2026, disponível em businesseconomy:
https://www.timesnownews.com/business-economy/economy/5-diesel-4-gas-fuel-costs-explode-across-us-amid-iran-war-article-154078627
ESRI. (2023). Segurança Internacional: Conceitos e
Evolução – Guia 2024. Acesso em 17 de Abril de 2026, disponível em
esri.net.br:
https://esri.net.br/seguranca-internacional-importancia-e-evolucao/
Missile Strikes. (2026). Iran War Casualties by
Country. Acesso em 2026, disponível em Missilestrikes.com:
https://missilestrikes.com/casualties-tracker/
Murphy, D., McManus, A., & Miller, A. (7 de Abril
de 2026). What America Has Lost in the War With Iran. Acesso em 19 de
Abril de 2026, disponível em americanprogress.org:
https://www.americanprogress.org/article/what-america-has-lost-in-the-war-with-iran/
Salvo, P. H. (2026). EUA, Irã e Israel: Origens do
conflito, impactos globais e cenários futuros. Acesso em 19 de Abril de
2026, disponível em opeb.org:
https://opeb.org/2026/04/10/a-guerra-ira-vs-eua-e-israel-uma-analise-das-implicacoes-geopoliticas-e-estrategicas/
Singer, J. D. (1960). Review: International Conflict:
Three Levels of Analysis - Reviewed Work: Man, the State, and War: A
Theoretical Analysis Kenneth N. Waltz. World Politics - Published By: The
Johns Hopkins University, 453-461.
[1] MINGST, Karen A..
Princípios de Relações Internacionais. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
[2]
Em Relações Internacionais, Anarquia significa ausência de uma entidade acima
do Estado capaz de moldar o comportamento deste último.
[3]
Bandwagoning é um conceito de
Relações Internacionais que significa atrelar-se à um actor mais forte para
disso obter benefícios. Isso é, o facto de um Estado relativamente fraco
aliar-se à outro relativamente forte para reduzir as ameaças a sua integridade
enquadra-se no conceito de Bandwagoning.
[4]
Balance of Power significa a procura
de um Estado em aliar-se à outro/s Estado/s para reduzir o poder de um terceiro
Estado percebido como inimigo.
Comentários
Enviar um comentário